quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Voluntariado no divã


O que pensar acerca de ações voluntárias, que são referidas socialmente como fazer o bem, ajudar o próximo? Quais motivações inconscientes podem estar em jogo? Serão elas sempre úteis e adequadas àqueles que as recebem? E esses outros a quem nos referimos nessas situações como carentes, desfavorecidos, desamparados, que posição ocupam nessa relação, o que pode vir a produzir nesses sujeitos uma possível experiência como essa?

Para responder a esses questionamentos, a psicóloga e psicanalista Rachele Ferrari, nos convoca, de forma sensível e contundente, a pensar e a nos posicionar sobre o fazer voluntário.O resultado desse trabalho que agora poderá ser conferido em Voluntariado: uma dimensão ética – livro editado pela Escuta, lançado no dia 02 de outubro, às 11h, na Livraria da Vila (Unidade Fradique Coutinho).

Com base em uma experiência no ambiente corporativo, onde assessorou um Programa de Voluntariado em que funcionários acompanhavam jovens ditos desfavorecidos, Rachele, na melhor tradição freudiana, analisou os impasses envolvidos nessas ações. O objetivo é compreender o que motiva as pessoas a se engajar em favor dos outros, geralmente estranhos a seu meio e normalmente carregados de sofrimentos e situações de vida muito tumultuadas. Consequentemente, a autora busca entender ainda a baixa fidelização dos voluntários, levando a psicanálise a campo.

Pioneiro no Brasil, o programa de Mentoring Social da Hewllet Packard do Brasil (HP) – que se caracteriza por um estilo de orientação e auxílio, onde uma pessoa, geralmente mais madura e experiente, se põe a auxiliar outra em um momento de sua vida, por meio de orientação e apoio pessoal – foi implementado em 2004. Desde então, cerca de 30 duplas de mentores e jovens foram formadas.

Mais de 200 jovens, entre 17 e 25 anos, partilharam experiências com executivos da HP, que tinham entre 25 e 62 anos. “O Programa Mentoring da HP Brasil foi um marco no aprendizado interno sobre a construção e evolução de nossos programas sociais com foco em educação e voluntariado. Nosso desejo é que este material possa inspirar e inovar em futuras realizações de ações voluntárias”, pontua Regina Macedo, responsável pelo programa na HP.

Ao colocar escuta orientada pela psicanálise para apoiar e supervisionar os voluntários da HP, permitindo a compreensão e o questionamento sobre a natureza do altruísmo, Rachele convocava o grupo para engajar-se em um encontro que não se sustentaria apenas na compaixão. Iria além, permitindo que o sujeito assistido se firmasse em seu lugar, a partir de suas competências, resgatando aquilo que lhe é de direito. Esse trabalho trata-se, portanto, de um modelo de como transformar uma experiência profissional particular em atividade de pensamento: pesquisa, reflexão, elaboração.

Voluntariado:

Uma dimensão ética explora os primeiros quatro anos dessa experiência de Mentoring Social, com relatos de formidáveis casos de empatia e solidariedade, entre valiosos profissionais-voluntários e os jovens que os acompanharam. Muitos transformados – após o ano que dura a relação prevista no projeto da HP – em fraternos amigos, capazes de enveredar por delicadas questões pessoais, vedada a colaboração financeira, impedimento radical do cerne do projeto. É o caso, por exemplo, da jovem “J”: após o período do mentoring, desistiu de largar os estudos para morar com o namorado. Hoje, comemora o ingresso na faculdade de educação física. Ou ainda do “M”: um dos primeiros jovens a participar do programa, seguiu na área de projetos e hoje está empregado na Telefonica. O “E”, por sua vez, começou a realizar um sonho e entrou para faculdade de farmácia.

O programa, no entanto, não beneficia apenas os jovens. O impacto na vida dos mentores e consequentemente em suas respectivas atuações profissionais é notável. Não raro, os mentores se referem à experiência como um divisor de águas em suas vidas, tendo-os feito repensar a educação dos filhos, o relacionamento no ambiente de trabalho e as escolhas feitas para sua existência. “Orgulho-me muito em ter feito parte desta história, o programa e as pessoas que participaram me deram esperança e a certeza que ainda existe saída para este mundo tão caótico”, comenta um executivo da HP.

Processo contínuo de aprendizado que se auto-alimenta, turma após turma, dupla após dupla, o programa de mentoring social, aplicado no mundo corporativo, apresenta-se neste livro como um modelo a ser replicado. Projeto de baixo custo e altos resultados, o programa de voluntariado, associado à escuta psicanalítica, firma-se como uma forma de contribuir verdadeiramente com os jovens, cujas situações de vida oferecem poucas perspectivas de desenvolvimento social e profissional, além de produzir efeitos valiosos em todos os envolvidos.

O trabalho de Rachele Ferrari, reunido neste Voluntariado: uma dimensão ética, inspirado nessa rica experiência no Programa de Voluntariado da HP Brasil, oferece uma inovadora reflexão para todos que atuam no voluntariado, ressaltando os impasses freqüentes nesse campo, como a baixa fidelização do voluntário. Trata-se de uma obra de leitura obrigatória a todos aqueles que se envolvem ou desejam se engajar em ações solidárias por apontar caminhos e propor idéias de ações mais efetivas.

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