quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A sociedade do triste espetáculo


Não é só a onipresença dos meios de comunicação de massa. O espetáculo é a sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária e os indivíduos se obrigam a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência real.

Por isso a fama e prestígio de que gozam certas figuras. Estrelas, jogadores de futebol, alguns políticos. Estas pessoas vivem no lugar dos anônimos que vegetam no seu pobre vazio existencial. A realidade torna-se imagem e as imagens convertem-se em realidade. A unidade que falta à vida, recupera-se no plano da imagem.

Se o capitalismo substituiu o SER pelo TER, no espetáculo reina soberano o APARECER. Por isso é que o rico não quer apenas TER dinheiro, mas ele precisa APARECER. Nem importa aos jovens despossuídos se eles não têm dinheiro, se podem aparecer da mesma forma que os jovens ricos. As mesmas camisetas, o mesmo modo de se comportar. Basta à garota um palminho lindo de rosto e ela freqüentará os points da moda e ao rapaz ter um corpo malhado e as portas estarão abertas.

Debord distinguiu dois tipos de espetáculo: o "difundido", também chamado tipo ocidental ou democrático, de tônica capitalista. Caracteriza-se pela abundância de mercadorias e por aparente liberdade de escolha. E o "concentrado", próprio ao totalitarismo, com identificação mágica entre a imagem e a ideologia no poder.

Hoje existe outra fase espetacular, que poderia ser chamada "espetáculo integrado". Sob a máscara da democracia, a disseminação imagética remodelou totalmente a sociedade e pretende que nenhuma outra alternativa seja sequer concebível.

Nunca o poder foi mais perfeito, pois se consegue falsificar tudo: desde a cerveja, até o pensamento. Desde os CDs, até a educação. Tudo é aparência! Examine-se a educação universitária por exemplo. Alguns fingem que estudam, outros fingem que ensinam. A sociedade finge que acredita no processo, mas não abre espaço aos formados. Eles se submetem ao ritual do ensino e chegam, desiludidos e perplexos, depois de cinco anos, sem saber exatamente o que fizeram e para o que essa experiência lhes irá servir.

Fala-se em democracia participativa, mas a proclamação é retórica. Ninguém consegue verificar nada pessoalmente. Ao contrário, é-se obrigado a acreditar nas imagens. E imagens escolhidas por alguns poucos.

Para os donos da sociedade, o espetáculo integrado é muito mais conveniente do que os velhos totalitarismos. O casamento espúrio entre o interesse econômico e a política faz com que se persiga um único objetivo: continuar a propiciar lucro a quem já possui dinheiro e a manter quieta a massa excluída. Com os esquemas formais do poder sempre prontos a silenciar a voz dissonante.

Haveria a mínima condição de se inverter essa equação"

Não é impossível procurar liberar-se da máquina redutora de todos os idealismos à mesmice do consumismo. Existe, em cada ser humano, a semente de racionalidade que poderá germinar e fazê-lo pensar numa vida singular, sem compromissos com a ditadura da imagem.

Buscar a aventura da vida verdadeira é um desafio. Desvincular-se dos laços opressores do interesse e guiar-se pela emoção, pela compaixão, pelo amor, é contrário à lógica do sistema.

Refletir sobre a brevidade da vida, a impotência do dinheiro para acrescentar felicidade e para dar respostas às maiores angústias existenciais, salvar a natureza, ainda são compromissos factíveis.

O espetáculo pode ser até assistido, mas cumpre distinguir entre o que é real e o que é cenário. O espetáculo presente não pode ser a religião leiga. A religião verdadeira - religar-se com o Criador - é a resposta para quem precisa conhecer-se melhor e não continuar a ser objeto desrespeitado nos planos ambiciosos e interesseiros de quem só pensa em dinheiro e poder.

Fonte: José Renato Nalini é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de "Ética e Profissional, Editora RT.

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